Já dizia minha avó...




                                               
Tive uma infância cercada por uma grande família, cheia de tios, primos e todos os avós.
Meus avós paternos, Maria Augusta Martins Correa(9/1884) e Augusto Costa(1879), portugueses, vieram de Pousada da Campeã, Vila Real. Meu avô materno, Albino Affonso (25/07/1893),de Fafe, filho de Emília Affonso, que o enviou para o Brasil com 13 anos , para fugir à miséria em Portugal.
Ele jamais pode voltar à Portugal para vê-la, e sequer possuía recursos para
trazê-la.
Se comunicavam por cartas, que à época, vinham de navio e levavam muito tempo para chegar ao Brasil. 
Meu avô, sempre sentiu muita saudade de sua terra natal. Falava com nostalgia, das montanhas, das quais ouvi muitas histórias. Eu sonhadora, me perdia imaginando, como seria essa terra tão linda e distante?
Minha avó, Albertina Carvalho Vidal( 4/3/1898), era filha de Maria Carvalho, (portuguesa) e Avelino Vidal, espanhol da Galícia. Ele e a primeira filha deles, ainda pequenina, morreram de "Febre Amarela", pouco tempo depois de chegarem ao Brasil.
Minha família de imigrantes portugueses,era pobre. parte materna  morava em Bonsucesso no subúrbio; a paterna,na Rua do Bispo, 117( Rio Comprido), onde viviam muitos portugueses sem recursos.Antes, haviam morado em uma casa de cômodos, na Rua Jogo da Bola, no Morro da Conceição, na Saúde. 
Como vivi a maior parte do tempo em Bonsucesso, foi  minha avó materna, quem mais recheou minha alma com as lembranças mais fortes da infância; naquela rua sem calçamento e de casas com grandes quintais. 
Era “uma casa portuguesa com certeza”, por isso ao longo da minha vida, fui ouvindo citações a todo instante. Não aleatoriamente, mas empregadas nas ocasiões precisas.
Antes querida do que aborrecida” -  não abusarmos de visitas na casa dos outros, ainda mais sem avisar.
Fui ao vizinho pedir me envergonhei, voltei pra casa, remediei”         - nada de pedir gêneros aos vizinhos.
"Pobreza não é sinônimo de sujeira" - As roupas podiam ser remendadas,sujas não. A casa também sempre muito limpa, embora humilde.(água era carregada em baldes, dos poços). Era raro ter água nas bicas.
Quem se mistura aos porcos, farelo come” -  cuidado com quem anda
Antes só do que mal acompanhado”
Dize-me com quem andas e te direi quem és”
Junte-se aos bons, serás um deles, junte-se aos maus, serás pior que eles”
Pelo andar da carruagem, se vê quem vai dentro” - atitudes
Pelo hábito, se conhece o monge”
"Roupa suja se lava em casa" - nada de brigas na frente de outras pessoas
 A infância, me deu oportunidade de subir em árvores, chupar manga espada sentada no galho, tomar suco de tamarindo e outras frutas naturais.Subir nas caixas d'água, andar em cima dos muros(quando existiam); era normal nos subúrbios da Leopoldina, as casas separadas por cercas-vivas. Não foram poucas as vezes, que ultrapassamos nossos limites para mais brincadeiras no quintal dos vizinhos.
Minhas avós eram lavadeiras e a vida delas, nada fácil; normalmente muitos filhos e pouco dinheiro. 
Quando estava mais crescida, adorava ouvir as histórias de vida da vó Albertina. Enquanto ela cozinhava, eu encostava no portal fazendo mil perguntas,sobre a sua mocidade, o casamento e outras curiosidades que me assaltavam a mente.
Hoje, pensando sobre aqueles momentos, tenho a impressão que ela gostava muito que eu me interessasse por suas histórias, porque respondia a tudo com prazer.
Os fados que cantava quando era jovem, o cabelo loiro que chegava ao tornozelo, sendo trançado e posto em um coque; o casamento com meu avô Albino em 1914, a casa humilde que morava em Botafogo e, como a governanta de um almirante, dava para minha bisa, as sobras de comida daquela mansão.
Agora, somos poucos daquela época, mas, temos os filhos, netos e sobrinhos, e quem sabe um dia, também eles contem suas histórias. Afinal, quem não possui lembranças do passado? 
Viver nele não, muito menos, lá fixar residência; mas podemos vez ou outra, dar uma espiadinhadeixar escapar umas boas gargalhadas, ou até quem sabe, deixar cair umas lágrimas doídas...
Texto; Sonia Afonso Costa

 Vô Albino(1893) e Vó Albertina(1898)
Vó  Maria Augusta Martins Correa(1884)
Vô Augusto Costa(1879) (seu sobrenome em Portugal era Pereira Henriques)
Mudar nome era muito fácil

Minha Bisavó Emília Affonso(1870)
Morreu em um asilo em Fafe

Bisa,Maria Carvalho,nasceu em 1864

Minha mãe e tias prontas para o Carnaval 
   
 
Tio Antônio, tio Eduardo e tia Celeste
( irmãos do meu pai)
Rua Aguiar Moreira em Bonsucesso


Casamentos- meus pais, 1949 - Tia Edina e Oscar 1951 - Tia Celeste e Joaquim 1952

                          Tia Aida e Elias 1948                   Tia Nilza e Noêmio 1944

Coloco essas memórias, para que meus filhos, netos e bisnetos, possam conhecer seus antepassados.


 


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