Quando o aluno ensina a lição - Onde estará o Franklin?
Esta é a pergunta
que me faço quando ao dar asas à imaginação, passeio novamente pelo pátio de
uma escola em que trabalhei há mais de trinta anos e vejo crianças correndo,
numa tentativa mágica de levantar voo e quem sabe( de acordo com a falácia da
meritocracia de uma sociedade desigual) saírem da situação ruim em que a
maioria delas vivia. A escola atendia alunos que vinham das favelas de
Manguinhos e Jacarezinho e minha turma de primeira série , na extensa
faixa etária (8 à 14 anos) era um desafio constante à minha prática pedagógica
e à minha imaginação.nesse contexto desafiador, havia um menino de olhar triste
e corpo franzino chamado Franklin, que sem se dar conta, me proporcionou o
maior aprendizado do valor humano em minha vida.
Certo dia, de
cabeça baixa eu corrigia os trabalhos da turma quando comecei a ouvir um
barulho irritante de passos arrastados que pareciam lixar o piso da sala, de
tão pesados pareciam chumbados ao chão.Sem conseguir me concentrar no que fazia
por causa do rec,rec, rec, disparei sem sequer olhar o que acontecia:
- Não consegue
levantar os pés para andar?
Mas algo me fez
olhar, e naquele momento... Dor e vergonha inundaram minha alma e confesso,
senti vontade de morder a língua, ou que num passe de mágica pudessem as palavras
retornar ao lugar de onde nunca deveriam ter saído, das profundezas da minha
mesquinhez.
Diante de mim, com
olhos de súplica estava o Franklin e suas duas perninhas carregando nos pés, as
enormes botas que arrastava na tentativa milagrosa de não perdê-las no caminho,
ou quem sabe, para que elas não chegassem antes dele.
Meu coração doeu de
remorso, levantei e o abracei com carinho e pedi desculpas pelo que havia
acabado de falar.
Criança anjo
retribuiu o abraço, e a professora naquele dia levou para casa a maior lição de
sua vida, ensinada não por especialistas e doutores, mas por uma criança que
rejeitada pela indiferença da exclusão social, apelava por um gesto de
incentivo e amor.
"Silencie
quando não tiver nada bom para falar"
Onde quer que você
esteja Franklin, Deus o abençoe!


CONSTANTEMENTE TAMBÉM ME DEPARO COM MINHA CONDIÇÃO ÍNFIMA DE SER HUMANO...
ResponderExcluirEM NOSSAS DESCULPAS SOBRE O DESCASO GOVERNAMENTAL SOBRE A CONDIÇÃO PRECÁRIA DO MAGISTÉRIO, MUITAS VEZES, NÃO PERCEBEMOS QUE TAMBÉM FAZEMOS O MESMO COM QUEM CHEGA AO MUNDO SEM QUALQUER CHANCE, RECEBENDO MIGALHAS DE SAPATOS USADOS, E AINDA ASSIM, SE ESFORÇAM PELA AQUISIÇÃO DE CONHECIMENTO, QUE É O QUE PODE, DE ALGUMA FORMA MORAL, DAR A FALSA SENSAÇÃO DE QUE SE FAZ PARTE... TEXTO MARAVILHOSO E INCENTIVADOR A UMA REFLEXÃO DE INÚMERAS NOVAS ANÁLISES SOBRE O QUE TANTO PREGAMOS SOBRE IGUALDADE, QUANDO, NA VERDADE, SOMOS OS PRIMEIROS A EXCLUIR... MAS, O EXCELENTE DE TUDO ISSO É A CONCLUSÃO DO ASSUNTO, QUANDO O REMORSO NOS ORIENTA À TENTATIVA DE CONSERTO DO MAL QUE PRATICAMOS. OBRIGADO PELO TEXTO SABOROSO. E, EM MINHA HISTÓRIA, EU ME PERGUNTO... ONDE ESTARÁ O FARLEY, MEU EX-ALUNO....
O professor deve questionar constantemente sua prática pedagógica que está muito relacionada com sua postura diante da vida.Continuaremos errando, mas podemos descer do pedestal em que muitas vezes nos situamos e olhar o que verdadeiramente devemos e podemos fazer
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